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Transfiguração: Como Jesus e em Jesus somos luz partilhada, para que a sacralidade da vida seja cuidada

O relato da Transfiguração quer nos dizer a única situação que vale a pena ouvir, a única eterna, a única com sentido, a única pela qual vale a pena quebrar – por um momento – o silêncio: como Jesus, e em Jesus, somos luz.

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transfiguração

Por Pe. Ricardo Geraldo de Carvalho
Missionário Redentorista

Lc 9, 28b-36

O Senhor Bom Jesus nos convida a subir até às encostas de sua montanha. Ele não leva todos, apenas alguns amigos muito próximos, para estar a sós com eles. Cada celebração da Eucaristia é uma “experiência no cume da montanha”, um momento que nos eleva acima dos problemas e preocupações do dia a dia, sem, no entanto, nos desconectar completamente deles. Daqui, enxergamos as circunstâncias corriqueiras de nossa vida sob uma nova perspectiva, com uma visão mais ampla e pura, não tão terrena ou mundana, todavia mais próxima da fonte. Desse ponto, vemos brotar uma força divina que sempre renova a vida em nossa planície.

O texto de Lucas 9, 28b-36 está repleto de símbolos que remetem ao Antigo Testamento e que expressavam uma manifestação (teofania) da divindade: monte, nuvens, luz, voz, medo e tendas. O evangelista quer destacar a singularidade de Jesus: “Este é meu Filho, o Eleito, escutem-no” (Lc 9, 35). A presença de Moisés e Elias, representando a Lei e os Profetas, traz à narrativa o núcleo da fé judaica. Tudo está presente e nada falta: em Cristo, tudo se centraliza e se concentra.

A celebração eucarística não é uma fuga da realidade ou uma ilusão, mas sim um verdadeiro reabastecimento espiritual que nos ajuda, após a descida à planície, a enfrentar os desafios diários com mais esperança. Em cada Eucaristia, “aparecem” Moisés, Elias ou outros profetas; o Antigo Testamento é proclamado e escutado. Em seguida auscultamos (escutamos com o coração) uma história sobre Jesus apresentada no Novo Testamento. Jesus é mais do que Moisés, mais do que Elias. Após esses precursores, Ele é o servo de Javé, o Profeta, ou melhor, o Filho, aquele que melhor nos revela quem e como Deus realmente é: Amorosidade. A premissa “escutem sobretudo a Ele” ressoa em cada liturgia da Palavra. “Escutar verdadeiramente” significa: “fazer o que Ele pede, mesmo quando nos convida a seguir com Ele o caminho do dar, do partilhar e do servir”.

Em cada Eucaristia, há “momentos de oração silenciosa”, quando nos colocamos novamente na corrente do amor de Deus e ouvimos a voz que sussurra no silêncio do coração: “Você é meu Filho, meu escolhido”. Rezar é sentir novamente que somos os amados de um Pai que nos ama. Mas também é falar com Deus, conversar com Ele sobre tudo o que vivemos e sobre o que ainda está por vir. “Eles discutiam como tudo terminaria para Ele e como Ele realizaria isso em Jerusalém”. Assim, também nós, em nossa oração, muitas vezes ficamos às turras com Deus: “O que Você planeja para mim? Deus, para onde quer me levar? O que realmente espera de mim?”

Pois bem, devemos nos conscientizar que o real vai além do histórico: abraça-o, dá-lhe profundidade, sentido e o transcende. Talvez só a poesia possa sussurrá-lo: “Ter sido imortal transcende o tornar-se imortal”, afirma a poetisa estado-unidense Emily Dickinson (1830-1886).

O relato da Transfiguração quer nos dizer a única situação que vale a pena ouvir, a única eterna, a única com sentido, a única pela qual vale a pena quebrar – por um momento – o silêncio: como Jesus, e em Jesus, somos luz. É um relato de identidade e nos diz quem somos. A beleza e a força desse texto estão exatamente em revelar-nos a nós mesmos, que Cristo é a nossa identidade mais profunda.

Em cada Eucaristia, há também uma “mudança de aparência”. Se observarmos com olhos de fé, veremos, no meio de uma luz radiante, muito mais que pão e vinho comuns. O pão partido e o vinho oferecido tornam-se os sinais da própria presença de Jesus. Aqui, aprendemos a ver como nosso Deus realmente é: Amor que se entrega, frágil e generoso, partindo-se e dando-se. Aqui, aprendemos quem devemos nos tornar: uma comunidade que, no amor desinteressado — que se parte, divide e doa — encontra a força para transformar nosso mundo de dentro para fora, tornando-o mais humano para todos.

Essa experiência no cume faz muito bem — “Mestre, é bom estarmos aqui!” —, mas não podemos ficar muito tempo na montanha. “Pedro sugeriu construir três tendas, entretanto ele não sabia bem o que estava dizendo”. Ao final de cada Eucaristia, somos enviados com uma “missão”, uma tarefa até a planície. Precisamos levar algo de nossa celebração ao retornar ao cotidiano: nossa família, trabalho, compromissos, lazer etc. O que, principalmente?

Se aqui, no partir do Pão, descobrimos, vimos e experimentamos que o Amor que se doa é a verdadeira fonte de força para nosso mundo, no vale, também nos doaremos: nossa atenção, tempo, talentos e possibilidades. Essa é a missão que recebemos em cada Eucaristia: “o verdadeiro amor se parte, se divide e se entrega, para que os outros vivam!”

Podemos entender a mensagem da Transfiguração abrindo uma janela para a criação, como fez, o frade dominicano alemão, Mestre Eckhart (1260 – 1328): “Deus criou todas as coisas de modo que elas não estão fora d’Ele, como pensam equivocadamente as pessoas ignorantes. As criaturas, pelo contrário, fluem de Deus e, ao mesmo tempo, permanecem n’Ele”.

A experiência da Transfiguração — experiência de identidade —, tão importante e radical, é um dom para todos e podemos prepará-la com silêncio e escuta: justamente dois elementos fundamentais de nosso texto e do tempo da quaresma que vivemos. Silêncio e escuta nos conectam com o outro nível do nosso ser.

Descobrir que nossa identidade é a luz, é Cristo, não é — e não pode ser — uma operação mental, um esforço moral ou uma investigação filosófica. Exatamente porque nossa identidade mergulha suas raízes no coração do Mistério. Mistério envolto em nuvens e escuridão. Nossa razão, muitas vezes egóica, deve ceder humildemente espaço ao silêncio e à escuta. Deve render-se ao Mistério.

Quem nos ajuda nessa missão? “Então, eles viram apenas Jesus”. Ao descer para a vida diária, só temos “o exemplo de Jesus”. Cabe a nós fazer o que ele fez. Ele andou fazendo o bem. Seu amor não fazia distinções. Sua solidariedade não tinha fronteiras. Não obstante isso não foi tolerado e tornou-se a sua cruz. Ele a carregou com coragem, crendo que o Amor que se entrega é mais forte que o sofrimento e a morte. Essa será nossa tarefa: fazer o bem por onde passarmos, ser solidários além de todas as fronteiras, testemunhando que o amor, mesmo exigindo sacrifícios, é mais forte.

Podemos ser o que muda e morre? Podemos ser nosso corpo, mente, sentimentos e emoções? Tudo isso é frágil, instável, perecível. Nossa verdadeira identidade está além, guardada nas entranhas amorosas do Mistério, protegida por uma luz inextinguível. Essa é a mensagem eterna e maravilhosa da Transfiguração, metáfora de nossa verdadeira identidade.

Para quem encontra Jesus, é Páscoa, mesmo no meio da quaresma. Encontramos força para, apesar das resistências e negatividades, continuar crendo nesse amor desinteressado, mais forte que qualquer morte. Assim, cada Eucaristia é uma experiência no cume da montanha, próxima da fonte do poder de Deus: na liturgia da Palavra, aprendemos a escutar o Filho; nos momentos de oração silenciosa, falamos com Ele, como filhos amados, acerca dos seus planos para nós; na consagração e comunhão, recebemos a força para nos tornarmos pessoas que se doam; e, ao final, somos enviados para tornar nosso mundo mais humano, lá no vale do cotidiano.

Somos imortais porque somos luz. Somos imortais porque somos vida divina — Cristo vivo — expressando-se em nossa frágil humanidade. Essa identidade transcende (vai além) e sustenta o próprio anseio pela imortalidade. Quem viu uma vez, viu para sempre e desde sempre.

Sensibilizemo-nos, portanto, com o convite do monge trapista francês, Thomas Merton (1915 – 1968):
“Fique em silêncio,
escute as pedras das paredes,
fique calado e então,
tente dizer seu nome,
escute as paredes vivas.
Quem é você?
Quem é você?
De qual silêncio você vem?”

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